domingo, 5 de abril de 2009

História da Filosofia: Platão e o Idealismo


PLATÃO (427-347 a.C.), cujo verdadeiro nome era Aristocles, nasceu em Atenas e pertencia a uma das mais importantes famílias da aristocracia ateniense. Foi discípulo de Sócrates que seria para ele “o mais justo e o mais sábio dos homens”. Depois da morte do mestre deixou a cidade e realizou várias viagens pelo norte da Africa e sul da Itália, o que ampliou enormemente seus conhecimentos e horizontes filosóficos. De volta a Atenas decidiu fundar uma escola nos arredores da cidade, conhecida como a Academia, que é considerada a primeira instituição de ensino superior do mundo ocidental.


A ACADEMIA

A Academia era mais que uma instituição dedicada às investigações científicas e filosóficas, pois pretendia ser, também, um centro de preparação para uma atuação política baseada na busca da verdade e da justiça. Além disso, o trabalho desenvolvido na academia não tinha como objetivo a manutenção ou a transmissão de conhecimentos supostamente prontos e definitivos. Pelo contrário, seus esforços consistiam num exercício constante para conhecer mais e melhor as coisas, uma investigação sempre aberta e insatisfeita numa busca permanente pela verdade. Mais que uma filosofia que se fecha em torno de dogmas ou verdades absolutas realiza um filosofar que se abre sempre para novas possibilidades. Essa concepção forneceu um modelo que embasou a evolução do pensamento filosófico até os os dias de hoje.


A OBRA DE PLATÃO

A filosofia de Platão é a primeira grande síntese do pensamento antigo. Nela estão organizadas e comparadas todas as idéias dos grandes filósofos que o antecederam. Desde as investigações dos primeiros pensadores sobre o princípio do mundo, passando pelas exigências lógicas do pensamento de Parmênides e o impasse sobre o movimento e a pluralidade na visão de Heráclito, até as questões sobre os valores humanos emergidas no debate entre Sócrates e os sofistas. O rigor da matemática pitagórica é, por sua vez, a base do seu pensamente filosófico, garantindo certeza e exatidão dos resultados de uma investigação metódica e sistemática. No pórtico da Academia estava escrito: “Aqui não entre quem não sabe geometria.” A força dessa síntese é tal, que a filosofia ocidental irá, ao longo dos séculos, apenas desdobrar as grandes questões levantadas e sistematizadas pela obra platônica. E a influência dessa obra é tamanha, que não deixam de ter alguma razão os que dizem que todos nós somos discípulos de Platão.
A possibilidade de um conhecimento teórico que se auto-fundamente e afirme sua validade unicamente pela força de suas demonstrações é dada pelo método que Platão chama de dialética. Seu modelo são os diálogos socráticos, cujo encadeamento preciso de raciocínios acabava impossibilitando qualquer contestação. Por meio de afirmações, e objeções a elas, vai se realizando, aos poucos, uma síntese depurada pela crítica, que nos dá uma visão cada vez mais clara e uma argumentação cada vez mais sólida, até atingir uma espécie de consenso, pois as conclusões a que se chega são irrefutáveis e não permitem qualquer outra solução. Em suma, através do método dialético o conhecimento se eleva gradativamente do plano instável e relativo das opiniões para o plano mais seguro e consistente dos conceitos que nos aproximam da verdade.
Enquanto coordenava os estudos e pesquisas na Academia, Platão escrevia suas obras, conhecidas como Diálogos. É difícil distinguir neles o que são idéias de Sócrates e o que são idéias do próprio Platão. Escritos em belíssima prosa, situam o autor entre os maiores escritores de todos os tempos, pois neles Platão conseguiu, como nenhum outro pensador, colocar questões filosóficas com tamanha beleza literária. Entre eles destacam-se: Primeiro Alcebíades (sobre a natureza do homem), Apologia de Sócrates (sobre o julgamento de Sócrates), Mênon (sobre a possibilidade do ensino da virtude), Banquete (sobre o amor), Fédon (sobre a morte e sobre a natureza da alma), República (sobre a formação do filósofo e a cidade ideal), Sofista (sobre a definição de sofista e a distinção entre a verdade e o erro), Timeu (sobre a origem e a constituição do universo) e Leis (sobre questões políticas). Além disso, Platão expôs seus pensamentos em numerosas Cartas, das quais a mais significativa, em termos filosóficos é a número VII.


A TEORIA DAS IDÉIAS

Um aspecto fundamental do pensamento platônico é sua teoria das idéias, através da qual Platão procura explicar como se desenvolve o conhecimento humano. Segundo ele, o processo do conhecimento se desenvolve por meio da passagem progressiva do mundo das ilusões e das aparências para o mundo das idéias e das essências.
Numa primeira etapa, são as sensações ou impressões advindas dos nossos sentidos que formam a opinião que temos a respeito das coisas. É um saber que adquirimos sem uma busca metódica, através das nossas vivências, e que originam as crenças que nós temos a respeito do mundo. Mas o verdadeiro conhecimento só se adquire quando ultrapassamos a esfera das impressões sensoriais e penetramos na esfera racional da sabedoria, ou seja, no mundo das idéias. Nesse mundo é que encontramos os seres perfeitos; a verdade, a justiça e a beleza, mas nele só conseguimos entrar mediante um esforço racional, ou seja, através da filosofia.
A opinião nasce da percepção da aparência e da diversidade das coisas. A realidade sensível é um mundo de seres imperfeitos e incompletos, que estão sempre se transformando, como se fossem cópias defeituosas que procuram imitar sua forma ideal, perfeita e universal. Como Platão considerava a alma imortal, seguindo a tradição pitagórica, para ele, quando o homem apreende, está na verdade lembrando algo que sua alma já conhece. Por falar nisso, é obvia a influência que as concepções platônicas exercerão sobre as doutrinas religiosas, em especial o cristianismo.
Para expor sua teoria das idéias e como se desenvolve o processo do conhecimento, Platão criou uma famosa alegoria, conhecida como “mito da caverna”, e que aparece no livro VII da República. Nessa passagem ele imagina homens que, estando acorrentados dentro de uma caverna, acreditam que a realidade é aquele mundo de sombras, de imagens projetadas na parede da caverna, até que um deles consegue sair e, à luz do dia, enxergar as coisas como elas realmente são. Ao retornar para a caverna para tentar mostrar aos outros que o que eles viam era apenas uma ilusão, uma sombra da realidade, acabou enfrentando, obviamente, a reação de homens ignorantes e apegados às suas crenças.


O PENSAMENTO POLÍTICO DE PLATÃO

Durante sua juventude, como foi comum entre os jovens atenienses abastados de sua geração, Platão cultivou a idéia de preparar-se para a vida política e ocupar cargos importantes no governo da cidade. A condenação de Sócrates, seu grande mestre e referencial, foi um fato marcante na sua vida e levou-o a uma profunda reflexão e a uma nova atitude com relação à política. Decepcionado com a democracia ateniense, concluiu que “somente à luz da verdadeira filosofia se pode reconhecer onde está a justiça na vida pública e na vida privada.” Para ele, somente reis-filósofos, eternos amantes da verdade, teriam condições de atingir o mais alto conhecimento do mundo das idéias, que “consiste na idéia do bem”.
Já na sua maturidade, Platão expôs na República a sua concepção de governo numa sociedade idealizada por ele e que toma a cidade-estado de Esparta como modelo. Nela, existem três classes sociais: os governantes, os guerreiros e o povo. Este último segmento, formado por escravos, agricultores, artesões, médicos, arquitetos, comerciantes e outras profissões, produz toda a riqueza e o sustento da sociedade, mas está excluído da participação política. Aos guerreiros são negados quaisquer direitos relacionados com a vida privada. Sua educação, desde cedo, é conduzida pelo Estado de modo a prepará-los para garantir a segurança interna e externa da sociedade, sua única função. Finalmente, a classe governante é constituída pelos filósofos, se ainda podemos chama-los assim, recrutados entre os militares com mais de cinquenta anos. São eles, os detentores da verdade, que devem governar de maneira autoritária e ditar as leis que todos devem seguir, além de fiscalizar a vida de cada membro da sociedade.
Comparando a sociedade a um corpo, o filósofo afirma que as pernas servem para sustentá-lo (os trabalhadores), os braços para defendê-lo (os guerreiros) e o cérebro (os filósofos) para dirigi-lo. Platão localiza, ainda, na psique humana três seções que seriam correspondentes à divisão do Estado: a razão, a vontade e as paixões. Enquanto à razão, cabe formular as leis que devem reger os homens, cabe à vontade garantir que elas sejam executadas. As paixões, por sua vez devem simplesmente cumprir o que lhes foi determinado, ou seja as paixões devem ser controladas pela razão. No “mito da caverna”, significativamente, a massa ignorante mata aquele que, saindo da escuridão e enxergando o mundo com a clareza que a luz lhe permitiu, tentou advertir os outros a respeito de sua ilusão. Por fim, é interessante lembrar que, nessa política e nessa psicologia platônicas, os artistas e deficientes, por exemplo, estariam excluídos de sua sociedade “ideal”.

2 comentários:

  1. Bah, querido professor, Edir. Sempre porcurei conhecer alguma coisa de Platão e de Pitágoras, seja por livros ou revistas. Até a República cheguei a ler.
    Não posso deixar de parabenizá-lo por esse ótimo texto sobre Platão. Nunca li nada igual referente a ele, com tantas informações.
    Bárbaro, exímio!!

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  2. Caramba fessor, pq eu não achei o senhor antes uai? Muito bom seus textos! Parabéns!

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