ACIONISTAS QUESTIONAM O ENVOLVIMENTO DA VOLKSWAGEN COM A DITADURA DE 1964 E COM REPRESSÃO ATUAL

A Associação de Acionistas Críticos questionou a relação entre a Volkswagen e a ditadura brasileira (1964-1985), durante a reunião anual de prestação de contas da companhia, em Hannover (Alemanha). Os acionistas também pediram explicações sobre a suposta venda de carros e jatos d'água para a repressão de protestos no Rio de Janeiro. “Nós exigimos que a Volkswagen investigue e esclareça imediatamente esses casos, tendo em vista o recente aniversário de 50 anos do Golpe Militar brasileiro. A Volkswagen deve admitir e assumir sua responsabilidade histórica no fato”, argumenta o documento. No caso do envolvimento com a ditadura militar, a Volkswagen deverá responder sobre as contribuições financeiras dadas ao IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e ao GPMI da FIESP (Grupo Permanente de Mobilização Industrial, diretoria criada na federação das indústrias em abril de 1964). De acordo com a Associação de Acionistas Críticos, esse dinheiro teria sido usado para a construção de um complexo industrial-militar no Brasil, sob a orientação da ESG (Escola Superior de Guerra). Além disso, os representantes da empresa alemã serão obrigados a se posicionar sobre a denúncia de que ao menos três funcionários da sua subsidiária Scania foram demitidos e tiveram informações repassadas ao Dops (Delegacia de Ordem Política e Social) depois que a polícia os prendeu por, suspostamente, fazerem parte de um "movimento socialista".A Associação de Acionistas Críticos é um grupo sem fins lucrativos que possui ações em mais de 25 das maiores empresas da Alemanha e, por isso, tem o direito de se posicionar nas reuniões anuais de apresentação de balanço. A companhia questionada é obrigada a responder algo no mesmo evento. Em relação à venda de jatos d'água, a associação argumenta que a simples existência desse produto entre os oferecidos pela Volkswagen “é incompatível com princípios éticos da empresa”. O documento lembra ainda que esse tipo de arma já foi usada na Turquia, quando a população ocupou a Praça Taksim contra a construção de um empreendimento imobiliário. O GPMI foi uma diretoria criada dentro da Fiesp oficialmente em 30 de abril de 1964; caracterizada como o “ponto dos negócios entre a indústria e a ditadura”, segundo o jornalista e ex-militante Antônio Carlos Fon. Seu objetivo oficial seria readaptar o parque industrial brasileiro à produção de equipamentos bélicos. Sua atuação, entretanto, era mais profunda: remonta às células de logística da conspiração que se preparavam para derrubar o presidente João Goulart desde 1961. A empresa Volkswagen do Brasil aparece nas atas de reunião do GPMI como uma das “Firmas que doaram verbalmente” ao grupo. Evidenciando a relação próxima entre as Forças Armadas e as grandes empresas, a diretoria do GPMI era obrigatoriamente composta por membros civis e militares. Uma desses dirigentes era o general e ex-ministro Edmundo Macedo Soares e Silva, militar brasileiro que teve destacada passagem por diversas megaempresas, entre as quais estava a Volkswagen — além de Mercedes Benz, Mesbla, Banco Mercantil de São Paulo e Light, conforme aponta o historiador e cientista político uruguaio René Armand Dreifuss em seu livro 1964: A conquista do Estado.

Fonte: Opera Mundi

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