Um ano após golpe de Estado, República Centro-Africana apresenta 'raízes de genocídio'

   

   Desde que conquistou a independência da França em 1960, a RCA (República Centro-Africana) manteve um panorama político instável, com sucessivas deposições e tomadas de poder com o passar das décadas. No entanto, há um ano , um golpe de Estado afastou o então presidente François Bozizé e declarou Michel Djotodia o primeiro líder muçulmano em um país de maioria cristã. Djotodia renunciou há dois meses e Bozizé nunca mais voltou desde que se exilou na República Democrática do Congo, mas o derramamento de sangue continua até os dias de hoje e se aproxima cada vez mais da categoria de genocídio – em grande parte, por ser um dos conflitos mais ignorados no mundo contemporâneo.
   Com 4,5 milhões de habitantes, a República Centro-Africana sempre teve tensões internas inconciliáveis, mas a atual situação tem alarmado as agências da ONU que trabalham para apaziguar o confronto na região.  Apesar das reservas de ouro, diamante, urânio e ferro, a RCA é um dos países mais pobres do mundo.
   Para entender a atual dimensão do conflito é preciso compreender as condições a que o país estava submetido em 2013. Na liderança da República Centro-Africana desde 2003, Bozizé também virou presidente após um golpe. Contudo, dez anos depois, o então presidente foi deposto, segundo Djotodia, “por causa da situação miserável” que deixou o país. Líder da milícia muçulmana Seleka, Djotodia também havia dito que ficaria no poder “o tempo que fosse preciso para estabelecer a paz”.
   No entanto, a duração do governo Seleka foi efêmera. Como apenas 15% da população da República Centro-Africana é muçulmana, a entrada da facção no poder foi censurada pela maioria cristã – particularmente pela milícia cristã Antibalaka –, marcando o início da crise no país. O clima de tensão atingiu proporções alarmantes no dia 5 de dezembro. A escalada da violência dos ataques entre as duas milícias rivais fez da capital Bangui um campo de batalha, resultando na morte de mais de 600 civis até o fim de 2013.
   Incapaz de pôr fim à violência entre cristãos e muçulmanos que se intensificou no país, Djotodia renunciou no dia 10 de janeiro de 2014 devido às fortes pressões da comunidade internacional. Em meados de janeiro, o chefe de operações do Escritório de Ajuda Humanitária da ONU, John Ging, já havia alertado que existiam todos os elementos para que ocorresse um genocídio na República Centro-Africana.  
   Para tentar estabilizar a crise, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma intervenção militar francesa com 1.600 soldados que se somou às tropas africanas do Misca (Missão Internacional de apoio à RCA, em francês), já atuantes no país. Uma das esperanças de reconciliação entre os muçulmanos e cristãos é a nova presidente interina do país, Catherine Samba-Panza, que entrou no poder no dia 20 de janeiro e deve permanecer até as eleições presidenciais oficiais, previstas para 2015.

Fonte: Opera Mundi.

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