A FORMAÇÃO DE PORTUGAL

  Portugal formou-se como um país em terras tomadas aos árabes, durante a chamada Guerra de Reconquista da Península Ibérica. Assim é denominado o longo conflito (desdobramento das Cruzadas), para expulsar os mouros da região. Os muçulmanos haviam cruzado o estreito de Gibraltar em 711, mas foram barrados no seu avanço, na altura dos Pirineus, pelo chefe franco Carlos Martel na famosa Batalha de Poitiers, em 732. Os cristãos, descendentes dos visigodos ficaram isolados numa pequena região ao norte da península, as Astúrias, de onde começaram a longa luta que culminaria com a expulsão definitiva dos árabes no século XV.

   Nos territórios conquistados até o século XI surgiram três pequenos reinos cristãos – Leão, Castela e Galiza – que foram unificados por Afonso VI. Dois nobres franceses que lutaram ao seu lado, Raimundo e Henrique de Borgonha, receberam terras como recompensa e casaram com suas filhas. Henrique casou-se com Dona Tereza, filha bastarda de Afonso, recebendo como dote a suserania sobre o Condado Portucalense, situado nas terras ao sul do MInho. Depois da morte do pai, Afonso Henriques, enfrentou e venceu os partidários de sua mãe na Batalha de São Mamede e, em seguida, derrotou Afonso VII e bateu os mouros, sucessivamente. Em 1139, proclamou a independência do condado e intitulou-se rei de Portugal.

 A constante ameaça leonesa, por um lado, e muçulmana, por outro, exigiram a manutenção de um exército permanente, o que contribuiu para manter forte o poder real, ao contrário da descentralização política, que é própria do feudalismo. Isso fez o reino luso antecipar o processo de concentração do poder que levará à formação das monarquias nacionais européias na Baixa Idade Média. Embora existissem relações de servidão e laços de vassalagem, a nobreza nunca foi detentora de grandes privilégios. A servidão também nunca apresentou a rigidez que é típica do medievo europeu. A inexistência de um feudalismo em Portugal, no sentido clássico do conceito, também está relacionada com as profundas diferenças que, desde o início, se acentuaram entre o litoral e o interior.


   No litoral, a pesca, a navegação e o comércio geraram uma intensa mobilidade de trabalhadores, artesãos, marinheiros e a formação de uma rica burguesia, acrescida pela presença de mercadores estrangeiros. O renascimento comercial e urbano, vivido pela Europa na Baixa Idade Média, acentuou cada vez mais esse desenvolvimento. Enquanto isso, no interior, formas feudais de produção agrícola eram responsáveis por constante êxodo da população, especialmente em épocas de crise, como a Grande Fome que ocorreu no século XIV. De maneira geral, pode-se dizer que os grupos interessados na preservação da autonomia portuguesa e no seu crescimento econômico viviam nas cidades litorâneas. Os senhores feudais do interior, por outro lado, colocavam-se a favor do domínio castelhano e da preservação das formas tradicionais de domínio e exploração.

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