Portugal abrigou traficantes de obras de arte durante Segunda Guerra Mundial

   Novos personagens desse episódio da história europeia foram descobertos pelo jornalista Carlos Guerreiro, que analisou documentos dos serviços secretos norte-americano e britânico, tornados públicos pelo NARA (Arquivo Nacional dos Estados Unidos) e legalmente disponibilizados online.
 
  Um deles é Jean Rolland Ostins, proeminente comerciante francês de antiguidades em Paris. Após a ocupação nazista, mudou-se para Lisboa e se tornou um dos principais traficantes de arte durante a Segunda Guerra Mundial.
Nascido em 1894, Ostins, que havia lutado durante a Primeira Guerra, mantinha um negócio na Quay Voltaire, à margem do Sena.   Na primavera de 1941, já com Paris ocupada pelas tropas alemãs, ele se declara colaboracionista e viaja diversas vezes a Lisboa, sem qualquer problema para aquisição de vistos. Finalmente instala-se com a mulher Lidoine num apartamento supostamente do ex-cônsul da Bolívia, na rua Castilho, parte pombalina da capital lusa.
 
  É nessa rua que abre a empresa Laos, cujos fins eram obscuros. Segundo relatório norte-americano de 1945, Ostins contrabandeava diamantes com ajuda da esposa e negociava “obras de arte conhecidamente provenientes do país inimigo” e dos territórios ocupados. Tudo isso enquanto entretinha as visitas a Portugal de alemães e pessoas ligadas ao governo de Vichy, então capital da França do general Philippe Pétain, sob influência nazista.

   Descrito pelos serviços secretos como “completamente egoísta e sem qualquer escrúpulo”, Ostins levantou suspeitas inclusive da polícia política portuguesa, a Pide. Seus clientes eram provenientes dos mais variados países, como Estados Unidos, Argentina e Uruguai. Numa carta de 1941 interceptada pelo governo norte-americano, um potencial cliente em Nova York lhe pede somente obras famosas e de museus e exige garantias de que o negócio não oferecia riscos ao comprador. “Podemos fazer milhões de dólares”, escreve.

   A posição alegadamente “neutra” de Portugal durante o armistício e sua localização geográfica, bem comunicada por linhas aéreas e marítimas com a Europa e as Américas, fez do país um pólo de atração para traficantes.

   O mercado negro operava da seguinte forma: as obras confiscadas pelas forças de Adolf Hitler, mas tidas como 'degeneradas' – classificação geral para a arte moderna não germânica ou de autores judeus –, eram entregues a comerciantes de confiança. Eles as vendiam num esquema que utilizava Lisboa como depósito ou porto de passagem para as Américas e revertiam o montante ao regime alemão. Ainda não se sabe o nome das obras que de fato passaram pelo esquema.

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