World Watch: Diferenças que persistem entre as duas Alemanhas se refletem nas eleições


Disparidades econômicas e sociais entre os Estados que integravam a antiga República Democrática da Alemanha (socialista) e aqueles que compunham a República Federal da Alemanha (capitalista) deixaram marcas no comportamento ideológico e eleitoral dos alemães. Hoje, o país chega às eleições que marcam os 20 anos da reunificação de certa maneira dividido.
Nenhum analista sério coloca em dúvida a integração das duas Alemanhas. As fronteiras entre os chamados novos e antigos "Länder" (Estados) não existem de fato. A rápida unificação teve a vantagem de que os mecanismos de mercado foram introduzidos na porção oriental em um curto espaço de tempo.
Enquanto o colapso da "velha" economia foi bastante severo --com centenas de empresas fechadas e 2,5 milhões de empregos perdidos-, já em 1991 um processo de crescimento se tornou visível em boa parte da Alemanha Oriental. Parte da capacidade industrial também foi recuperada.
Porém, após 20 anos, a exuberância prometida não se concretizou de todo e deu lugar a um desencantamento que se traduz em movimentos tanto de esquerda quanto de extrema-direita de maneira mais acentuada do que na outra metade do país. "Há aspectos bastante positivos, especialmente com respeito à expansão dos mercados relevantes", afirma Joachim Ragnitz, diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas, com base em Dresden (na ex-Alemanha Oriental).
"Mas é preciso reconhecer os aspectos negativos. O crescimento já não é mais alto que o da Alemanha Ocidental há uma década. E os baixos ingressos públicos, vindos de impostos e contribuições sociais, que poderiam estimular uma transferência de renda, acabam prejudicando as perspectivas de crescimento. A lacuna de renda e riqueza não fecha", diz.
Sem crescimento sustentável, analistas veem poucas chances de redução do desemprego, que chega ao dobro do da porção ocidental. Já a renda equivale a 70% da dos alemães do oeste. O Ministério da Construção e do Desenvolvimento Urbano para o Leste Alemão calcula que serão necessários ao menos dez anos até que a região possa se manter sem as injeções financeiras do governo federal, de 30 bilhões anuais. Mas o prognóstico oficial é positivo. "O leste está convergindo para o oeste", diz o ministro Wolfgang Tiefensee.
Outro problema grave é demográfico. Segundo o Instituto de População e Desenvolvimento de Berlim, entre 1989 e 2007 mais de 1,7 milhão de pessoas migraram do leste para o oeste --cerca de 12% da população--, expulsos pelos baixos salários e o pouco trabalho. Cerca de 55% dessa imigração é de mulheres; mais da metade, de pessoas abaixo dos 30 anos. Estudos apontam que a população sofrerá ainda uma redução de entre 7% e 10% nos próximos 12 anos.
"Existe um fosso econômico entre os Estados da antiga Alemanha Oriental e os da Ocidental que se reflete no comportamento eleitoral", diz Oskar Niedermayer, professor da Universidade Livre de Berlim. Para ele, "o perfil eleitoral na Alemanha se define claramente mais em termos leste-oeste do que norte-sul".
O exemplo mais claro desse fenômeno é o crescimento do partido A Esquerda, cujo berço é a Alemanha Oriental. O apoio ao partido é de 20% no leste, enquanto no oeste, salvo a exceção do Estado de Sarre, não passa dos 5%.
"Muitos se sentem desconfortáveis com as diferenças de renda e poder de consumo e acabam postulando mais ação estatal -uma diferença cultural e também uma herança do socialismo que continua até hoje", diz Ragnitz.
Paradoxalmente, o desapontamento com o desenvolvimento no leste acabou levando os mais jovens a movimentos como o Partido Democrático Nacional (NPD), de tendência neofascista, como forma de protesto.
Nas eleições de 2005, ele obteve pela primeira vez representação no Parlamento estadual de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental -região mineira que sofreu forte impacto da reunificação e com 18% de desemprego. Brandemburgo e Saxônia também têm parlamentares estaduais do NPD. Porém são pequenas as chances de o NPD ter alguma representação parlamentar em nível federal.

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