Crise em Honduras: Governo golpista diz que não precisa de reconhecimento internacional


O novo chanceler de Honduras, Enrique Ortez Colindres, afirmou nesta quinta-feira que o governo do presidente interino, Roberto Micheletti, "não precisa de reconhecimento internacional" e que é o presidente hondurenho "com ou sem a OEA" (Organização de Estados Americanos) --que condenou o golpe de Estado e exigiu a restituição imediata do presidente eleito, Manuel Zelaya, ao poder.
Pelas últimas declarações, o governo interino hondurenho está disposto a resistir à pressão da comunidade internacional, unânime em condenar a derrubada de Zelaya e em pedir seu retorno. Nesta quinta-feira, o ministro de Relações Exteriores da Suécia afirmou que todos os países da União Europeia (UE) vão retirar seus embaixadores do país.
"Micheletti é o presidente e não estamos esperando que venham reconhecê-lo", disse o chanceler, acrescentando que "o povo hondurenho já o reconheceu."
Segundo o ministro, os países são livres para pronunciar-se "de acordo com seus critérios", mas alertou que Honduras aplicará o princípio de reciprocidade.
"Se há países que não querem ter relações com Honduras, o país tão pouco vai querer ter relações com eles", disse.
Colindres afirmou ainda que a destituição de Zelaya foi resultado de seu "desacato às ordens constitucionais" e negou os relatos do presidente deposto de que foi tirado à força de sua casa por um grupo de militares que usaram violência.
Ele afirmou que toda a operação para expulsá-lo para a Costa Rica foi pensada para "protegê-lo" de um grupo que pretendia assassiná-lo.
"O perigo não se vê em Washington e sim na cara das pessoas com vontade de matar, de um grupo enfurecido que o tirou do poder", afirmou o ministro.
Colindres criticou Zelaya por ter se cercado de "um grupo de comunistas" em seu governo, que transformaram Honduras em "um país com dependência total dos petrodólares" que supostamente recebeu do governo venezuelano.
O ministro afirmou que há evidências de que Zelaya recebeu um empréstimo da Venezuela e que não houve nenhum controle sobre o uso deste dinheiro, que seria usado para financiar o referendo constitucional que o presidente deposto queria promover e que causou a crise política em Honduras.
O presidente interino de Honduras adotou um discurso mais ameno e disse recorrer a Deus pedindo um reconhecimento externo para "subsistir".
"O tempo corre a nosso favor", afirmou Micheletti, no dia seguinte ao anúncio do ultimato de 72 horas dado pela OEA para que o presidente deposto seja colocado de volta ao poder.
"Corre a nosso favor, porque estamos tendo oportunidade de mostrar com tempo aos países que no momento têm dúvida do que aconteceu aqui as informações que temos sobre todos os erros cometidos pelo ex-presidente Zelaya", explicou.
O presidente tenta escorar sua mensagem otimista assegurando que seu governo vai "seguir recebendo o apoio de outros países para poder subsistir" e reiterou ter confiança de "que o mundo compreenderá" que nenhum crime foi cometido.
"Estamos com esperança, com fé em Deus que vão nos reconhecer", acrescentou Micheletti, que completa 61 anos em agosto próximo.
Segundo ele, Zelaya deixou o país porque quis e que ninguém o colocou em um avião à força, apesar de militares o terem detido no domingo ainda de pijama e levado o então presidente à Costa Rica.
"Possivelmente no momento em que foi perguntado, disse que queria ir, pelos nervos, por essas coisas. Porque o que ele merecia era prisão", afirmou o presidente, que destacou que "não foi dado um golpe".
O presidente lamentou ainda que na "América Latina se tenham cometido delitos em outros países e nunca a OEA nem a ONU intervieram" e assegura que por mais que os organismos internacionais se empenhem em pôr Zelaya de volta ao poder, "aqui o povo tem seu claro e definido pensamento democrático".
"Não podemos ficar sós, não prejudicamos nenhum outro país", completou.
Ao ser questionado sobre o cenário apresentado a partir do sábado, quando termina o ultimato da OEA, o presidente citou Cuba. "Os cubanos vivem há 50 e poucos anos isolados, mas têm um montão de amigos, então, pouco a pouco, também vamos receber o apoio de outros países para poder subsistir", afirma.
O ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt, confirmou nesta quinta-feira que todos os países da UE decidiram retirar seus embaixadores de Honduras em um gesto de protesto pelo golpe que depôs o presidente eleito, no domingo passado (28).
Bildt, cujo país assumiu a Presidência da UE nesta quarta-feira, escreveu em seu blog nesta quinta-feira que "todos os embaixadores da UE deixaram o país."
Ele escreveu ainda que há certa incerteza ainda sobre os eventos em Honduras depois do golpe, arquitetado pela Justiça e pelo Congresso, e que a UE debate a melhor forma de impulsionar "um rápido retorno do governo constitucional."
Nesta quarta-feira, o ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, afirmou a Radio Nacional da Espanha que as embaixadas dos 27 países do bloco haviam decidido retirar seus embaixadores do país centro americano.
Segundo o ministro espanhol a decisão significa que Alemanha, Itália, França, Espanha e a Comissão Europeia manterão relações diplomáticas de baixo nível com o país.
A Espanha trem pressionado os países do bloco europeu a retirar seus embaixadores e adotar uma posição mais rígida contra o governo interino de Honduras desde a realização do golpe.
A Espanha e França anunciaram nesta quarta-feira que haviam convocado seus embaixadores para consultas sobre o golpe.
A UE, assim como a ONU (Organização das Nações Unidas), a OEA (Organização dos Estados Americanos) e os Estados Unidos, condenaram o golpe de Estado em Honduras e exigem o retorno imediato de Zelaya ao poder.
Zelaya foi derrubado do poder neste domingo (28) em um golpe orquestrado pela Justiça e pelo Congresso e executado por militares, que o expulsaram para a Costa Rica. O golpe foi realizado horas antes do início de uma consulta popular sobre uma reforma na Constituição que tinha sido declarada ilegal pelo Parlamento e pela Corte Suprema.
"Fui retirado da minha casa de forma brutal, sequestrado por soldados encapuzados que me apontavam rifles", contou o presidente deposto, após chegar ao exílio na Nicarágua.
"Diziam: "se não soltar o celular, atiramos'. Todos apontando para minha cara e o meu peito. [...] Em forma muito audaz eu lhes disse: "se vocês vêm com ordem de disparar, disparem, não tenho problema de receber, dos soldados da minha pátria, uma ofensa a mais ao povo, porque o que estão fazendo é ofender o povo'."
De acordo com os parlamentares hondurenhos, a deposição de Zelaya foi aprovada por suas "repetidas violações da Constituição e da lei" e por "seu desrespeito às ordens e decisões das instituições". Segundo os seus críticos, com a consulta, Zelaya pretendia instaurar a reeleição presidencial no país. As próximas eleições gerais serão em 29 de novembro.
Depois da saída de Zelaya do país, no Congresso de Honduras, um funcionário leu uma carta com a suposta renúncia, o que ele nega. Zelaya diz ter sido alvo de "complô da elite voraz"; e seu sucessor, Micheletti, diz que o golpe foi um "processo absolutamente legal".

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