Conflito na Nigéria: Líder de radicais muçulmanos é executado depois de ser capturado


Mohammed Yusuf, líder do movimento radical islâmico da Nigéria que esteve no centro dos distúrbios que mataram ao menos 180 pessoas nos últimos dias, foi morto nesta quinta-feira, horas depois de ter sido capturado pelas forças de segurança, disse um porta-voz da polícia nesta quinta-feira.
"Ele foi morto. Você pode entrar e ver o corpo dele na sede do comando da polícia estadual", disse Isa Azare, porta-voz do comando da polícia cidade de Maiduguri, no norte da Nigéria. Yusuf, cuja seita Boko Haram (Educação é proibida), quer uma maior adoção da sharia (lei islâmica) em toda a Nigéria, foi preso após uma perseguição que envolveu helicópteros militares e policiais armados.
Um repórter da agência Reuters viu Yusuf em um quartel militar em Maiduguri após sua captura e relatou que o líder islâmico estava em pé e não aparentava estar ferido. Ele foi mais tarde transferido para a sede da polícia da cidade, onde morreu.
O Exército e polícia combateram os remanescentes da seita em Maiduguri, onde bombardearam o complexo onde está localizada a mesquita do grupo. As forças de segurança revistaram porta por porta em busca de membros da seita, enquanto disparavam rajadas de tiros e helicópteros pairavam sobre o local. Yusuf inicialmente havia escapado junto a outros 300 seguidores, mas seu vice foi morto no ataque, informou o comandante do Exército, general Saleh Maina.
A violência explodiu quando membros do grupo foram presos no domingo (26) no Estado de Bauchi, cerca de 400 km ao sudoeste de Maiduguri, sob suspeita de planejar um ataque a uma delegacia. Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram nos confrontos. A agência France Presse, que cita policiais e testemunhas, diz que o número passa de 600, desde domingo passado (26). A polícia afirma que a maioria das vítimas é composta por militantes do grupo radical.
O confronto deixou ainda cerca de 4.000 refugiados no país. Apollus Jediel, funcionário de ajuda humanitária nigeriano, afirma que cerca de mil pessoas abandonaram suas casas nesta quarta-feira, se reunindo a outros 3.000 que já deixaram suas casas nos quatro Estados afetados pela violência.
Os distúrbios se espalharam para os Estados de Bauchi, Kano, Yobe e Borno, cuja capital, Maiduguri, é o lar de Yusuf, e onde a violência foi maior.
O presidente Umaru Yar'Adua, em uma visita oficial ao Brasil, falou por telefone com os governadores do norte da Nigéria e apelou para que os líderes tradicionais e religiosos para usarem as orações desta sexta-feira --dia de culto para os muçulmanos-- para advertirem as pessoas sobre os perigos de tais seitas.
Yusuf era radicalmente contra a educação em moldes ocidentais. Críticos dizem que ele açoitou alguns alunos, bem como analfabetos, jovens desempregados em ações contra os poderes constituídos ao longo de um período de anos.
Os locais dos distúrbios fazem parte da lista de 12 Estados nigerianos --de um total de 36-- que iniciaram o uso mais estrito da sharia em 2000 --uma decisão que isolou ainda mais a minoria cristã na região e iniciou uma onda de violência sectária que matou milhares de pessoas desde então.
Armados com facões, facas, espingardas artesanais e coquetéis molotov, seguidores de um pregador militante islâmico atacaram igrejas, delegacias, prisões e prédios governamentais nos últimos dias. A violência explodiu quando alguns membros do Boko Haram foram detidos no domingo no Estado de Bauchi.
"Nós não acreditamos na educação ocidental. Ela corrompe as nossas ideias e convicções. É por isso que nos levantamos para defender a nossa religião", disse um membro veterano do grupo, Abdulmuni Mohammed Ibrahim, à agência Reuters nesta segunda-feira (27), após a sua detenção, no Estado de Kano.

Praticamente metade da Nigéria é cristã e metade é muçulmana, apesar de religiões animistas tradicionais ainda permearem a fé de muitos dos nigerianos. Mais de 200 grupos étnicos vivem, em geral, em paz lado a lado no país mais populoso da África ocidental, apesar de uma guerra civil ter deixado um milhão de mortos entre 1967 e 1970. Houve alguns confrontos de ordem religiosa desde a guerra civil também.
Em novembro do ano passado, centenas de pessoas foram mortas em confrontos na cidade central de Jos depois que uma eleição contestada causou algumas das piores batalhas entre grupos muçulmanos e cristãos dos últimos anos.
Apesar de suspeitas de serviços de inteligência, não há provas conclusivas da presença da rede terrorista Al Qaeda na Nigéria ou de ligação dos grupos islâmicos do país com o grupo fundamentalista Taleban, do Afeganistão, e as aparentemente caóticas táticas do Boko Haram possuem pouco em comum com as aplicadas por grupos militantes islâmicos em outros países.
O país é regularmente abalado por violências de dimensão religiosa, mas analistas dizem que é a pobreza, e não as crenças que estão no centro da insurgência radical islâmica.
O país é o maior produtor de petróleo da África, mas a pobreza é disseminada e agravada por um governo marcado pela corrupção que não enfrenta com eficiência a multiplicidade de problemas que afligem a população.
O grupo islâmico que atua no norte da Nigéria não está ligado ao Mend (movimento pela emancipação do delta do Níger), o mais importante grupo rebelde da Nigéria, responsável por uma campanha de violência que tem como alvo a indústria petrolífera no sul do país.
O importante grupo muçulmano nigeriano Jama'atu Nasril Islam já condenou a violência do Boko Haram e apoiou as forças de segurança.
A ministra da Informação da Nigéria, Dora Akunyili, disse nesta sexta-feira que a morte do líder do grupo islâmico Boko Haram foi "positiva" para o país.
O grupo liderado por Mohammed Yusuf foi responsabilizado pela onda de violência dos últimos dias no norte da Nigéria. Centenas de pessoas morreram em confrontos entre ativistas armados e as forças do governo.
"O que é importante é que ele [Yusuf] foi retirado do caminho, para impedi-lo de usar as pessoas para causar tumultos", disse Akunyili à BBC.
Grupos de direitos humanos manifestaram preocupação com a morte de Yusuf, levantando a suspeita de que ele tenha sido executado por forças de segurança do governo após a captura.
Comentando as alegações, Akunyili afirmou que o governo nigeriano 'não apoia mortes extrajudiciais'. O governo e a polícia sustentam que ele foi morto em um tiroteio.
O Boko Haram luta contra o governo nigeriano e quer implantar uma versão rígida da lei islâmica no país.
O corpo morto de Mohammed Yusuf, 39, foi filmado com ferimentos de bala horas depois de ele ser capturado na cidade de Maiduguri, no norte da Nigéria.
A ministra nigeriana disse que o governo está preocupado com o incidente e vai investigar "exatamente o que aconteceu".
Akunyili acusou Yusuf de fazer 'lavagem cerebral' dos jovens que o seguiam. A ministra elogiou as forças de segurança, que, segundo ela, impediram que a violência no norte do país se espalhasse ainda mais.
O grupo de direitos humanos Human Rights Watch, sediado em Nova York, disse que o caso deveria ser alvo de uma investigação imediata.
"O assassinato extrajudicial de Yusuf em custódia policial é um exemplo chocante do forte desprezo da polícia nigeriana pela lei", disse Eric Guttschuss, da entidade.
Soldados nigerianos invadiram a sede do Boko Haram em Maiduguri na noite da última quarta-feira (29), matando vários rebeldes e provocando uma fuga em massa.
Yusuf foi preso no dia seguinte, supostamente escondido na casa dos seus sogros. Um repórter da BBC foi um dos jornalistas que teve acesso a dois vídeos. Em um deles, Yusuf aparece confessando seu envolvimento na onda de violência. No outro, seu corpo aparece morto, cheio de buracos provocados por balas.
"Mohammed Yusuf foi morto por forças de segurança em um tiroteio enquanto tentava fugir", disse o inspetor-geral Moses Anegbode em entrevista à televisão nigeriana. Um porta-voz do governador do Estado também disse que Yusuf foi morto quando tentava fugir.
Cerca de 300 pessoas morreram nos últimos dias em decorrência da violência provocada pelo grupo. Algumas fontes não-oficiais indicam que o número pode chegar a 600. A Cruz Vermelha afirmou que 3,5 mil pessoas fugiram da região.

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